5# COMPORTAMENTO 28.1.15

     5#1 A POLMICA EXECUO SUMRIA
     5#2 PENA DE MORTE  BRASILEIRA
     5#3 O INCRVEL SEQUESTRO DA MENINA IDA
     5#4 LEOPOLDINA, A FEMINISTA

5#1 A POLMICA EXECUO SUMRIA
A chocante morte do brasileiro Marco Archer e o iminente fuzilamento do paranaense Rodrigo Gularte na Indonsia, onde os ndices de criminalidade continuam altos apesar da severidade das penas, reacendem o debate sobre a eficcia desse mtodo punitivo
Fabola Perez e Helena Borges

Um campo aberto e uma cruz de madeira na ilha de Nusakambangan. Essa foi a ltima paisagem contemplada por Marco Archer Cardoso Moreira, que morreu aos 53 anos, fuzilado na Indonsia por trfico de drogas no sbado 10. Assim como os outros quatro condenados  morte, Marco vestia uma camisa branca com uma marca preta na altura do corao, para facilitar a mira dos atiradores. O brasileiro decidiu morrer vendado e em p  poderia ter ficado sentado ou de joelhos. E em p ouviu o comandante do peloto soprar o apito que anunciava a execuo. A espada erguida sinalizava para os atiradores mirarem o peito dos condenados. Segundos depois, o disparo. Marco foi executado com um nico tiro, a uma distncia entre cinco e dez metros. Confirmada a morte, foi vestido em um terno preto, providenciado pelo governo local, e levado por uma ambulncia. A cremao ocorreu em uma cidade vizinha, sobre uma folha de bananeira. Antes mesmo de o corpo ser calcinado, um homem quebrou manualmente os ossos, que foram entregues  tia do brasileiro, Maria de Lourdes Archer Pinto, nico parente presente no pas, em uma urna. Ainda sob o torpor da medieval execuo do carioca, o Pas agora assiste  via-crcis de outro brasileiro, Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42 anos, tambm condenado por trfico de entorpecentes e um dos 130 prisioneiros que podem ser executados nos prximos meses. Enquanto a polmica da pena capital voltava ao debate, motivada pelas execues na Indonsia, na tera-feira 20 mais um caso chocou a nao. O surfista Ricardo dos Santos morreu aos 24 anos aps ser baleado por um policial  paisana na porta de sua casa, em Santa Catarina (leia mais na pg. 61) e a agonia do jovem esportista, causada por um profissional que deveria zelar por sua segurana, inflamou ainda mais a parcela da populao que defende a morte como mtodo punitivo.

FIM - Terreno descampado em Nusakambangan, Indonsia, local onde cinco prisioneiros foram executados. Marco Archer (no detalhe) morreu na segunda cruz da esquerda para a direita

Aps fracassar nas sucessivas tentativas de salvar Marco Archer  a presidente Dilma chegou a emitir um apelo humanitrio pessoal ao atual presidente, Joko Widodo, para que concedesse clemncia ao condenado , o governo brasileiro batalha pela vida do paranaense Gularte, preso no Aeroporto Internacional de Jacarta em 2004 ao tentar entrar no pas com seis quilos de cocana escondidos em pranchas de surfe. O Itamaraty no entrou em detalhes sobre a estratgia a ser adotada junto ao governo da Indonsia, mas parentes de Gularte buscaram a ajuda do papa Francisco para interceder no caso. A postura de negociao tem sido, desde o incio, optar por um trabalho discreto, sem constrangimento por parte do governo indonsio. Segundo especialistas em relaes internacionais, esse tipo de ao  adotada para no provocar um efeito contrrio ao desejado  o de esquentar ainda mais os nimos e piorar o quadro dos condenados. Fontes prximas  famlia confirmam a existncia de um laudo mdico atestando que Rodrigo desenvolveu sintomas de esquizofrenia na priso e apresenta sinais de perda da conscincia.

A Justia indonsia permite que, em casos de demncia, o condenado seja transferido para um hospital. Reconheo que o Rodrigo cometeu um erro, mas no se justifica a pena de morte. No foi um crime to grave. Ele est preso h mais de dez anos e acredito que j pagou o suficiente, disse a me, Clarisse Gularte. Na tera-feira 20, o Ministrio das Relaes Exteriores informou que o pedido de clemncia foi rejeitado. Na quarta-feira 21, o embaixador brasileiro na Indonsia, Paulo Alberto Soares, chamado ao Pas pela presidente aps a execuo de Archer, se reuniu em Braslia com Dilma e o ministro das Relaes Exteriores, Mauro Vieira.

Resposta  insegurana
Enquanto governo e famlia se unem em defesa da vida de Gularte, a populao do Pas se divide. Parte dos brasileiros se chocou com a execuo de Archer, mas outra parcela no escondeu manifestaes de apoio ao governo indonsio. E mesmo em pases como o Brasil, em que o direito  vida  garantido pela Constituio, a pena capital tem simpatizantes. Uma pesquisa realizada em setembro do ano passado pelo Datafolha mostrou que 43% dos brasileiros apoiam a pena de morte. O coordenador do Programa de Justia da ONG Conectas, Rafael Custdio, diz que a pena capital carrega em si a ideia de castigo que encontra aceitao popular. H um conceito vulgarizado de que, quanto mais dura for a resposta da Justia, mais segura ser a sociedade e com isso a populao passa a enxergar na execuo uma medida necessria. Assim, a pena de morte se torna uma resposta imediata ao medo em regies assoladas pela violncia, que no conseguiram desenvolver polticas de segurana bem estruturadas. Caso do Brasil.

Atualmente, a Anistia Internacional estima que 23 mil pessoas esperam no corredor da morte em todo o mundo. Os ltimos nmeros divulgados por esse rgo mostram que houve um aumento global no nmero de execues. Em 2013, pelo menos 778 pessoas foram executadas em 22 pases; em 2012, foram 682 mortes em 21 pases. O aumento se deu principalmente por conta das execues ocorridas na China, no Ir e no Iraque. As condenaes na China so consideradas segredos de Estado e no Ir houve uma forte tentativa de represso de ativistas polticos, diz Maurcio, diretor-executivo da Anistia Internacional. Levantamentos de organismos internacionais do conta de que pases que adotam a pena de morte no tm necessariamente ndices menores de criminalidade. Uma maior populao carcerria no implica mais segurana, afirma Nivio Nascimento, coordenador da unidade de Estado de Direito do Escritrio das Naes Unidas sobre Drogas e Crime da Organizao das Naes Unidas (ONU). Pases europeus como Sucia, Dinamarca, Frana e Inglaterra possuem baixas taxas de homicdio e no adotam a pena capital.

REVOLTA - Autor de um crime que horrorizou o Pas em 2003, Champinha incendiou  poca a parcela da populao favorvel  pena capital 

Dramas familiares
Nos ltimos dias, a ONU apelou ao governo da Indonsia para que restabelea uma moratria suspendendo a execuo dos condenados  pena de morte e faa uma reviso de todos os pedidos de clemncia.  muito comum na sociedade a ideia de que familiares de pessoas que j foram vtimas de violncia serem favorveis  pena capital.  natural e legtimo  condio das vtimas a vontade de querer extravasar o sentimento, diz Janana Paschoal, advogada e professora de direito penal da Universidade de So Paulo (USP). No podemos exigir dos parentes esse desprendimento: alguns tm um comportamento punitivo, outros no desejam a morte do agressor. Entretanto, nos Estados Unidos, por exemplo, h organizaes como o grupo Famlias das Vtimas de Assassinatos para os Direitos Humanos liderando movimentos para abolir a pena de morte. No Brasil, o mesmo ocorre com familiares de vtimas de crimes brutais. Como o de Liana Friedembach, mantida em crcere privado, sequencialmente estuprada e depois assassinada com golpes de faco aos 16 anos, em 2003, pelo menor Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, e seus comparsas. Sou completamente contrrio  pena de morte. Primeiro por uma questo religiosa, segundo porque no confio 100% no nosso Judicirio, afirma o vereador por So Paulo Ari Friedembach (PROS), pai de Liana. Acredito que precisamos de penas mais duras, longas e efetivamente cumpridas, diz. Para ele, crimes como estupro, latrocnio e assassinato deveriam compreender um tempo de deteno de modo que a pessoa no voltasse ao convvio social. Champinha est internado h sete anos em uma Unidade Experimental de Sade (UES), da Secretaria Estadual de Sade, destinada  recuperao de jovens infratores com distrbios mentais graves, em So Paulo.

Cada pas possui soberania para adotar ou no a pena de morte. O Brasil no pratica o mtodo de execuo porque entende punio como privao de liberdade, que funcionaria como um mecanismo de ressocializao. As execues interrompem esse processo.  um modelo cmodo, porque a sociedade descarta o criminoso sem a contrapartida de recuper-lo, disse  ISTO o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto. A pena de morte  um resqucio da barbrie que se mostrou conhecida com a lei do olho por olho, dente por dente. O direito de no ser condenado  morte  considerado uma clusula ptrea da Constituio, que no pode ser modificada nem mesmo por meio de uma emenda  Carta Magna. Apesar disso, o deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ) acredita que a pena capital  a melhor sada para crimes que envolvam mortes ou abusos sexuais de crianas. Se fosse com um filho meu, s teria um pouco de tranquilidade depois que esse homem fosse morto. Bolsonaro declarou apoio  pena adotada na Indonsia. O ser humano s respeita o que ele teme, diz.

No pas do Sudeste Asitico, as condenaes no conseguiram diminuir o trfico de drogas. Em Bali, um dos arquiplagos mais famosos do mundo, h uma grande demanda pelas substncias ilcitas. O trfico est ligado ao circuito internacional de drogas e as pessoas chegam  ilha acostumadas com uma poltica mais liberal, diz Santoro, da Anistia Internacional. O perfil social dos traficantes de Bali  diferente do encontrado em outros pases. Na ilha, quem vive do trfico so, em geral, surfistas de classe mdia e com escolaridade. Ao longo dos anos, a Indonsia se tornou um centro de distribuio de drogas para os pases asiticos e para a Austrlia. A pena de morte no vai trazer qualquer impacto positivo, disse  ISTO Haris Azhar, diretor da ONG Kontras, que atua na Indonsia na defesa dos direitos humanos. At o momento o governo mostrou incapacidade de lidar com a guerra contra as drogas e com a rede de traficantes que circulam livremente dentro e fora do pas. Outro fato recente que exps a incoerncia da Justia indonsia foi o pedido de clemncia  Arbia Saudita para evitar a morte de Satinah Binti Jumadi Ahmad, uma cidad daquele pas condenada por assassinar e roubar sua empregadora. O governo indonsio fez um apelo formal pedindo a suspenso da execuo. Esse  o problema de adotar dois pesos e duas medidas, diz Azhar.

A adoo da execuo implica diversos riscos  sociedade. Em pases com grande desigualdade, ela costuma recair sobre pessoas de classes sociais mais baixas. E como se trata de uma pena irreversvel, h o temor de se condenar inocentes. Um estudo da Universidade de Michigan indica que um em cada 25 condenados nos Estados Unidos  inocente.  o caso do operrio Manuel Vlez que, depois de passar nove anos detido, foi libertado em outubro do ano passado. Preso no Estado do Texas, em 2005, pela morte de um beb, Vlez foi condenado  morte em 2008. Advogados contratados pelo Estado comprovaram que havia sinais de ferimento no beb muito antes de ele ter tido contato com o operrio.  poca, o diretor do Death Penalty Information Center, Richard Dieter, afirmou que a libertao do operrio demonstrava os diversos problemas da pena capital. Muitos outros homens presos na cmara da execuo nunca tiveram um bom advogado trabalhando em seus casos. A execuo de Marcos Archer e o possvel fuzilamento de Rodrigo Gularte, que colocaram o Brasil na rota das execues, convidam  reflexo: o Estado tem direito de tirar a vida de um cidado? Para a diretora da Human Rights Watch Brazil, Maria Laura Canineu, trata-se de um mtodo cruel e degradante. O indivduo  torturado psicologicamente enquanto aguarda a deciso final, diz ela. Todos tm o direito de reinsero em um sistema que deveria ser restaurativo e no punitivo.

O LTIMO CONDENADO  MORTE NO BRASIL
A ltima sentena de morte oficial do Brasil foi dada ao fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, em 1855. Ele foi enforcado em Maca, no Rio de Janeiro, acusado de assassinar uma famlia de oito colonos que trabalhava em sua propriedade, em Macabu (RJ)  por isso ficou conhecido como a fera de Macabu. Assim como na Indonsia atual, pelas leis do Brasil imperial s era possvel escapar da execuo pela clemncia do governante. Entretanto, dom Pedro II no concedeu a graa e Manoel se tornou o primeiro homem rico e de alto escalo social a ser enforcado no Pas. Anos depois, com a comprovao da inocncia do fazendeiro, o imperador parou de aplicar a penalidade mxima. Com a Constituio da Repblica, em 1891, execues foram legalizadas apenas em situaes de guerra, mas voltaram  legislao com a instituio do AI-5, em 1969. As vidas ceifadas durante a ditadura, no entanto, no foram registradas como execues oficiais. A Constituio de 1988 retorna a considerar a pena capital apenas em casos de guerra.


5#2 PENA DE MORTE  BRASILEIRA
Em mais um caso de abuso de poder que abala o Pas, o jovem surfista Ricardo dos Santos morre aos 24 anos, baleado nas costas por um policial  paisana

Camila Brandalise (camila@istoe.com.br)

LUTO - O surfista Ricardo dos Santos, que participava da elite do surfe mundial, foi baleado por um policial militar na segunda-feira 19

No Brasil, a pena de morte no encontra nenhum amparo. O direito  vida, no entanto,  constantemente agredido por agentes do Estado, que matam indiscriminadamente e no  raro atingir inocentes. Foi o que aconteceu na segunda-feira 19, quando o surfista Ricardo dos Santos, o Ricardinho, foi baleado, aps uma discusso, pelo policial militar em frias Luis Paulo Mota Brentano, 25 anos, na praia da Guarda do Emba, a 50 km de Florianpolis (SC). O jovem morreu no dia seguinte. A polcia tem duas verses para o caso: a de que o PM teria agido em legtima defesa e a de que ele atirou sem motivo. O resultado de um laudo divulgado na quarta-feira 22 prova que Ricardo levou um tiro nas costas e dois na lateral do corpo, mesmo assim a defesa alega que as balas foram disparadas apenas para assustar o jovem. Muito abalada, a me de Ricardo, Luciane dos Santos, exps seu desespero com a trgica perda. Traz ele de volta, por favor, dizia. Depois, afirmou que ir lutar por justia.

O mundo do surfe, do qual Ricardo fazia parte, tambm demonstrou sua dor. Kelly Slater, 11 vezes campeo mundial, se manifestou nas redes sociais dizendo estar horrorizado. Gabriel Medina, atual campeo, mostrou sua tristeza publicando uma foto do amigo no Instagram. Na praia de Pipeline, no Hava, surfistas fizeram homenagem ao colega morto abrindo um crculo no mar. E vrios se deslocaram para Santa Catarina para o enterro, na quarta-feira 21.

CRIME - Enterro de Ricardo em Paulo Lopes, na Grande Florianpolis, gerou comoo entre familiares e amigos.

A tragdia comeou a se desenhar na manh da segunda-feira 19. Ricardo e o av Nicolau dos Santos estavam prontos para mexer no encanamento da casa em que viviam quando pediram a um motorista que ele mudasse seu veculo estacionado de lugar, pois estava parado em cima de um cano. Essa verso  confirmada pelo tio do surfista, Mauro da Silva, 35 anos, que estava no local e afirma ter ouvido o policial Brentano dizer: Quem manda aqui somos ns. Vi que a placa do carro era de Joinville, que eles no eram da Guarda e pedi para sarem, afirma Mauro da Silva. Tanto defesa quanto acusao relatam que, nesse momento, houve uma discusso entre Ricardo e o policial. Segundo o advogado Murilo Moraes, que assessora a defesa de Brentano, o surfista teria usado um faco para intimidar o PM. A polcia, porm, no encontrou nenhum objeto no local, apenas a arma usada pelo policial. Essa informao ainda est sendo investigada. Depois da discusso, Ricardo subiu at a caixa dgua da casa e Brentano disse que tiraria o carro dali. S depois de voltar  rua, foi baleado.

O policial militar Luis Paulo Mota Brentano  preso sob a acusao de matar Ricardo

Segundo o delegado Marcelo Arruda, responsvel pelo caso, o prximo passo  fazer uma reconstituio do crime, o que deve ocorrer nesta semana. As investigaes podem durar at o incio de fevereiro. Alm do inqurito civil, Brentano responde tambm a um inqurito policial militar e ser julgado dentro da corporao. Mesmo o acusado tendo alegado legtima defesa, a prpria Polcia Militar de Santa Catarina j criticou a atuao do PM e o uso da arma em uma situao desnecessria. Com o laudo apontando que um dos tiros foi dado nas costas de Ricardo, o argumento fica ainda mais enfraquecido. Segundo o advogado Murilo Moraes, a defesa ainda no teve acesso a esse laudo, por isso prefere no comentar a informao. O que dizemos  que ele disparou os tiros para assustar Ricardo, justamente para se defender.

HOMENAGEM - No Hava, surfistas se unem em crculo no mar e escrevem em prancha, em memria do colega assassinado (abaixo)

Inconsolvel, a famlia de Ricardo pede justia. Vi tudo acontecer na minha frente. Foi um ato desnecessrio e imperdovel, afirma o tio, Mauro da Silva. Segundo ele, o luto  to grande que os estabelecimentos da praia fecharam, mesmo com o lugar tomado por turistas. O coronel Paulo Henrique Hemm, comandante-geral da PM de Santa Catarina, condena a conduta de Brentano e afirma que, ao final do inqurito, ele ser expulso da corporao. O PM j respondeu a outros dois processos na Justia: em um foi absolvido e no outro o caso foi arquivado. Para Silva, a punio tambm pode servir de exemplo a outros policiais militares que se sentem acobertados de crimes com o argumento de legtima defesa. S queremos que essa pessoa pague pelo que fez. Ricardo era nosso heri.


5#3 O INCRVEL SEQUESTRO DA MENINA IDA
Abandonada pelos pais quando ainda era beb, a garota foi adotada por uma famlia brasileira, em 2013 foi sequestrada e agora localizada na Europa. Quem a raptou foi a prpria me biolgica 
Raul Montenegro (raul.montenegro@istoe.com.br)

RECOMEO - Com apenas 3 meses, Ida era abandonada pela me num quarto de hotel. Adotada pela famlia da camareira, vivia num ambiente amoroso

Uma criana desaparecida, pais biolgicos foragidos, trfico internacional de drogas, um rapto violento e um roteiro de fuga engenhoso. Um sequestro de enredo rocambolesco comeou a ser desvendado na segunda-feira 19, quando a Polcia Federal divulgou ter encontrado na Itlia, com o apoio da Interpol, a menina Ida Vernica Feliz, 10 anos, que estava na lista de desaparecidos do rgo aps ser raptada h quase dois anos de sua famlia adotiva no Brasil. O problema  que, apesar da divulgao, as autoridades brasileiras e italianas no sabem onde a garota se encontra, e  possvel que ela tenha sido levada para a Repblica Dominicana, onde as chances de recaptura so remotas, porque a criana e a sequestradora, sua me biolgica, possuem nacionalidade no pas. A ISTO conseguiu, com exclusividade no Brasil, informaes sobre os passos da criana aps sua sada abrupta do Pas.

A histria comea quando Ida tinha apenas 3 meses. Filha de um casal de traficantes de drogas, o italiano Paolo Ceccato (que no Brasil se apresentava com o falso nome de Pablo Milano Escarfulleri) e a dominicana lida Isabel Feliz, era s um beb quando sua me a deixava sozinha durante horas num quarto de hotel em Cuiab (MT). Aos funcionrios, a mulher afirmava que a menina precisava aprender a se virar. Diante da situao, a camareira Daniele Siqueira passou a cuidar de Ida. Aos poucos, lida foi permitindo que a moa levasse a criana para a casa de sua me, Tarcila Gonalina de Siqueira. No demorou at que Ida passasse a morar em tempo integral com Tarcila. A me natural ainda a visitou algumas vezes, apesar de nunca ter demonstrado inteno de lev-la consigo. Quando a criana tinha cerca de 2 anos, a famlia adotiva conseguiu a guarda provisria. Ida sabia de sua verdadeira condio, mas chamava Tarcila de vov. Tinha outras crianas como parentes, era uma excelente aluna na escola e fazia bal. Enquanto isso, seus verdadeiros pais foram presos por negociar entorpecentes. Ceccato foi expulso do Brasil em 2009, e em 2010, aps sair da cadeia, lida raptou o filho mais novo, Pietro, que estava em Tubaro (SC).

A me natural, que morava em Vicenza, na Itlia, fugiu com Ida para a Repblica Dominicana, sua terra natal, segundo o advogado do casal  

No dia 26 de abril de 2013, um veculo Celta branco estacionou  porta da famlia Siqueira. Em casa, estavam Ida, ento com 8 anos, e Daniele. Os criminosos bateram  porta e anunciaram o sequestro. Ao avistarem a menina, disseram que era ela quem procuravam, arrastaram-na pelos cabelos e dispararam em alta velocidade. Daniele no reconheceu os bandidos, mas a principal hiptese do delegado Flvio Stringueta, do Grupo de Combate ao Crime Organizado de Cuiab,  que eles tenham sido contratados pelo pais naturais. A garota entrou para a lista de raptados da Interpol e estava desaparecida at a semana passada, quando a organizao descobriu sua localizao na regio de Vicenza, no norte da Itlia. Mas at agora ningum sabe dizer onde ou com quem ela est. No Brasil, a PF afirmou no ter a informao, e o Ministrio das Relaes Exteriores s entrar no caso se for necessria assistncia consular. A Interpol disse que somente articula a conexo entre autoridades brasileiras e italianas. As polcias competentes na Itlia tambm se mantm em silncio.

LBUM - Condenados no Brasil por trfico de entorpecentes, a dominicana lida Isabel Feliz e o italiano Paolo Ceccato fugiram do Pas aps sair da priso 

Segundo investigao do peridico italiano Giornale di Vicenza, Ceccato e lida residiam numa casa alugada com trs filhos. Os mais velhos so Ida e, provavelmente, Pietro. O terceiro nasceu depois dos raptos. A polcia local investigava o casal desde o ano passado e estudava a melhor forma de remover a garota, mas a me viajou com as crianas para Santo Domingo, na Repblica Dominicana, pouco antes do Natal. Na semana passada, aps o caso estourar, o jornal chegou a falar com o pai sequestrador pensando se tratar de um novo companheiro de lida. Ele se apresentou como um empresrio inocente. Afirmou ter adotado os dois filhos mais velhos e aparentou choque ao saber do histrico de crimes da mulher.

Caso Ida estivesse na Itlia, no seria difcil traz-la de volta ao Brasil. De acordo com o professor de direito familiar Gustavo Kloh, ambos os pases so signatrios da Conveno de Haia sobre sequestro infantil, e o caminho natural seria que um juiz italiano devolvesse a menina ao Pas. Aqui, seria julgado se a guarda definitiva ficaria a cargo da famlia brasileira ou dos pais traficantes, que estariam em desvantagem pela ficha criminal. O advogado do casal, Paolo Salandin, disse que as crianas e a mulher esto de frias em Santo Domingo e que esclarecero as autoridades quando voltarem  Itlia. 


5#4 LEOPOLDINA, A FEMINISTA
A imperatriz deixa de ser vista como a esposa deprimida pelas traies do marido para figurar no centro do tabuleiro da monarquia brasileira
Helena Borges (helenaborges@istoe.com.br)

INDEPENDNCIA - O quadro de Georgina de Albuquerque retrata Leopoldina assinando o decreto que separa o Brasil de Portugal

A independncia do Brasil se deu no dia 7 de setembro de 1822, com o histrico grito de dom Pedro I. Certo? Errado! Cinco dias antes da data hoje celebrada como a da Independncia, um decreto separou o Pas de Portugal. O documento foi assinado pela ento regente, dona Leopoldina, mulher de dom Pedro. Sim, o Brasil foi governado por uma mulher durante o Imprio. Figura subestimada at recentemente por diversos pesquisadores e professores, a primeira imperatriz brasileira volta a ser estudada e deixa de ser vista como aquela que entrou em depresso aps incontveis traies para figurar no centro do tabuleiro estratgico da poltica monrquica. Autora dos discursos de dom Pedro e consultora pessoal do prncipe regente em assuntos polticos, a princesa austraca ressurge como um smbolo feminista da histria poltica brasileira.

HISTRIA - O historiador Fernando Garcia: "Ela no tinha dvidas de que os brasileiros desejavam a Independncia"

O acordo acertado aps o retorno de dom Joo VI para Portugal, em 1821, afirmava que, na ausncia do prncipe, sua mulher se tornaria chefe do Conselho da Coroa. Respeitando esta ordem, dona Leopoldina governou o Brasil por cerca de um ms. O fato, desconhecido da maioria dos brasileiros, ocorreu quando seu marido foi a So Paulo. O quadro de Georgina de Albuquerque (acima) retrata a reunio do conselho de 2 de setembro de 1822, presidida pela ento regente, que na imagem assina o decreto separando o Brasil de Portugal. Na conferncia, convocada pela prpria, os ministros apresentaram relatrios de levantes e perguntam o que fazer, ao que ela respondeu: Existe apenas uma possibilidade: a proclamao imediata da Independncia do Brasil. O documento foi enviado a So Paulo, para que o futuro imperador chancelasse a deciso. O historiador Fernando Garcia defende a postura afirmativa da monarca. Ela no tinha dvidas de que os brasileiros desejavam a Independncia. J dom Pedro estava cheio de dvidas.

Carolina Josefa Leopoldina era a sexta filha do segundo casamento de Francisco II, imperador do Sacro Imprio Romano-Germnico e o grande nome por trs do Congresso de Viena, reunio diplomtica na qual se redesenhou, em 1815, a geografia da Europa aps a queda de Napoleo Bonaparte. Fez parte de uma linhagem de mulheres de personalidade forte e, em sua infncia, teve aulas de estratgia e filosofia, rotina de muitos prncipes, o que a tornou a principal conselheira de dom Pedro I. De acordo com a diretora do Museu Histrico Nacional, Vera Tostes, Leopoldina trazia uma educao que ressaltava a responsabilidade de seu papel poltico. Sem dvida pode ser considerada um smbolo feminista na histria brasileira.

